terça-feira, 21 de outubro de 2008

Cora



Cora Lina
Alinha santos no quintal.
Mãos bentas a esmagar o
Milho.
Sabor de versos
Com água e sal.
Dama do cerrado,
Cozinha palavras,
Esbarra na alma.
Fabrica mulheres,
Confeita com graça
A dura rotina dessas
Deusas pretas.

sábado, 18 de outubro de 2008

Árvore



Árvore grandiosa,
Que os sono embala,
E que tudo sente.
Em brotos rompe a seiva fina,
Úmida, quase cristal.
Árvore de longos braços,
Arqueia o tronco,
Entrega a reza para
Os deuses eternos.

Banquete



Eu oriento o banquete
Sou rainha, dona da flor.
Sou mulher, sou vigia da noite.
Carrego a pipa de barro.
Cavo fundo o teu corpo.
Como lambendo a pele,
Arregaço as pernas pro céu.
Prove que o doce é bom.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Cravo


Não dê nome ao pé de cravo.
Cravo é coisa de cheiro.
Cravo esta flor no teu peito.
Lingua no ouvido em pé.
Arrepio doido, ligeiro.
Corre, que cravo é fé.

domingo, 28 de setembro de 2008

Vestido nº 2



Sonho entre saias rodadas girar
Só no lento cadenciar da ciranda.

Fechar a roda glorifica a alma fêmea
Com vastos bordados.

Fincados um a um,
Cravejados,
De pedras e plumas.

Um só espetar.
Um só enfeitiçar.
Um só desdobrar.

A roda, menina, incita o recriar.
Sonhamos todas.

Bordamos, espetamos, despertamos
A dor.

Para, depois, a curar.

sábado, 27 de setembro de 2008

Horácio



Vou pedir à minha santa grandiosa
O mais puro sal da terra
Para limpar os teus pés sujos de pó.
Limpos te serão como rodas furiosas.
No teu castelo de Horácio
Ninguém mais poderá escrever o nome.
Com devoção tu serás o príncipe de pés
Lavados em bacias supremas.
Espumas brancas te tomarão a face
Para que a tua sabedoria
Escorra em boa fonte.

Vestido


Rasga antes o meu vestido
Em tiras,
Enfeita com laços de bom
Tamanho.
O meu corpo é de sereia
Mansa, que grita o canto
Lírico da selva nua.

Ritual


Arrumei meu pedestal:
Chita, chifre e guiné.
Lavei com água de rosas.
Enfureci o ritual.
Com ares de dona deusa,
Cortei a ferro e a sal.


sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Amantíssima Mãe das Cadelas


Protege o meu andar
Ó santa virgem.
Envolve com seu manto
Todas as putas mães
Resignadas ao calvário.
Pinga sobre o meu olho
O óleo perfumado de lótus.
Amantíssima mãe das cadelas.